Pássaros viraram arte no Caparaó Capixaba

“O turista que visita a região descobre recantos mágicos, culinária tradicional, passeia por belas paisagens e ainda leva pra casa um pedaço do lugar”.

Uma região que tira suspiros pela mata preservada, a tranquilidade do lugar, animais típicos e um povo acolhedor. O Caparaó Capixaba que fica bem na divisa com Minas Gerais, virou rota obrigatória dos adeptos a natureza e exploradores dos recantos mais isolados do Brasil. A população nativa é pequena, mas já se acostumou a dividir o trabalho nas lavouras, as novidades que o turismo vem ofertando nas últimas décadas, com a geração de mais emprego e renda. Foi exatamente o que aconteceu com um grupo de mulheres que mora nos limites dos municípios de Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço, no estado do Espírito Santo. Elas largaram o trabalho puxado na roça e se dedicam a produção de pássaros artesanais.

As várias espécies foram tomando formas nas mãos das moradoras, como o beija-flor-de-topete-verde, corrupião, saíra-lagarta, o beija-flor-de-fronte-violeta e o sabiá-do-campo, entre outros pássaros, alguns já estavam extintos e morando apenas na lembrança de quem vive no lugar. As mulheres uniram a criatividade, com a necessidade de dar ao turista uma boa recordação da região, sem contar que a renda extra, ajudou as famílias financeiramente. “Nós tivemos uma consultoria em Patrimônio da Penha, com o Sebrae, que trouxe a ideia de fazer algum produto para o turista, antes não havia nada para ser oferecido. Começamos com as flores, mas não tiveram muitas saídas, depois de uma observação de pássaros em uma pousada da região, resolvemos fazer as aves”, conta a artesã, Josiane de Fátima Pirovani.



E assim começou o trabalho que vem ganhando a região e os estados brasileiros, na época, com uma pesquisa de biólogos foram levantadas 19 espécies de aves nativas. “Éramos um grupo de 23 mulheres, aconteceu técnicas manuais foram divididas: croché, bordado, ponto cruz, entre outros trabalhos. Pesquisamos muito o jeito de fazer, até chegar à arte final”, lembra Josiane.

O grupo foi ficando menor ao longo dos anos, hoje apenas cinco mulheres fazem a produção, o detalhe é que são todas da mesma família, a produção uniu ainda mais essas histórias e fez crescer os planos para o futuro. Antes o trabalho da roça era pesado, mal dava tempo de apreciar tanta beleza, ou mesmo, saber a diferença do canto dos pássaros. “Depois que nós começamos a fazer os pássaros, confesso que nunca tinha parado para prestar atenção nos nomes e cantos. Agora, prestamos atenção nos detalhes, quando aparece um diferente, já procuro um binoculo, tiro foto e mando para uma bióloga pra saber qual é a espécie”, conta a artesã. Ela segue o ritual diário de ir para a casa da irmã produzir as peças, por enquanto, vai de bicicleta motorizada, mas sonha em comprar uma moto.

Outros pássaros

O trabalho das artesãs agora não se restringe apenas aves da região do Caparaó, ganhou mais apaixonados por outras regiões. Com os estudos e a divulgação da técnica nas redes sociais, hoje são 76 espécies que já foram confeccionadas. Os clientes olham os trabalhos nas páginas de divulgação e acabam pedindo outras espécies de pássaros. As peças estão seguindo para longe, as encomendas são pedidas em Minas Gerais, Alagoas, Tocantins, além de outros estados, para a surpresa delas, o artesanato feito com tanta dedicação já chegou até Portugal e a Itália.

A artesã Celma Helena Pirovani Domingues, confessa que a cada dia está mais apaixonada pelo trabalho. “Eu fico muito feliz, porque todo o trabalho e a dedicação vêm dando certo, lembro que fiz meu primeiro pássaro, a consultora pedia e ninguém conseguia, tentávamos não dava certo e finalmente conseguimos. Deus fez um milagre em nossas vidas” acredita Celma, que viu de fato a rotina com a chegada do artesanato.

Vendas na pandemia

O maior medo das artesãs chegou junto com a pandemia do novo coronavírus, elas pensaram que o mercado ficaria parado, principalmente porque sem os turistas nas cidades do entorno ficaria difícil vender, foi então que as vendas pela internet começaram e deram um salto no faturamento. “As pessoas ficaram muito tempo em casa e as coisas melhoraram, passaram a ver mais o nosso trabalho, começamos vender mais quantidade por mês do que antes. Tudo isso nos deixou ainda mais unidas”, fala Celma.

Cada mulher tem uma história diferente com os pássaros, a Pâmela Dias, conta que sempre achou bonito o trabalho artesanal e não sabia fazer nada. Só que depois que casou a sogra fez questão de ensinar, de imediato aprendeu o crochê e o ponto cruz. “Me ajuda a distrair a cabeça, de dois anos pra cá, passei por momentos difíceis na vida e o artesanato ajuda a espairecer a mente”, conta a artesã Pâmela, que acrescenta ainda que, depois que a produção começou olhou com mais atenção para o quintal, aos pés do Parque Nacional do Caparaó, com muita área verde, cada dia pode ser uma surpresa pelo céu da região.

Nem dá pra dizer que a historia do bordado não é de família, a Joquebedes Nunes Pirovani Candido, por exemplo, conta que a avó já fazia muitos trabalhos manuais durante toda a vida. “Eu fazia carteira, bordava em tecido, começaram a falar que se fizessem os pássaros no modelo do nosso, daria certo. Mesmo morando perto, a gente demorava a se encontrar, quando nos encontrava uma estimulava a outra, mas sempre com aquela sensação que não daria certa. Lembro que o primeiro que fiz foi um corocoxó, todos gostaram, nem ficou muito tempo comigo e logo vendi. Comecei a fazer outras espécies e sei que tem muita coisa pra melhorar e aos poucos vamos aperfeiçoando”, conta Joquebete.

Sem medo de lutar

Cada pedaço dessa história acaba se encaixando. É o caso da Franciane Pirovani que dirigia uma retroescavadeira junto com o marido para dar conta do orçamento de casa, só que então veio a gravidez e ela sentiu a necessidade de estar mais com o filho. “Depois que fiquei grávida não quis mais ir para o serviço puxado, a cada pássaro que eu termino nem parece que fui eu que fiz. Sou independente, uma oportunidade muito boa, acompanho toda a infância do meu filho de perto e vejo as coisas acontecerem pra gente”, afirma Franciane. Ela é o braço forte do grupo, dirige e resolve todas as questões de entrega, assim a equipe vai crescendo: com cada uma fazendo a sua parte.

Brasil Original

O estudo e incentivo do Sebrae veio com o projeto “Brasil Original”, um estudo que levou cerca de três anos, com informações de marketing, preço e instruções sobre mercado. De 2015 a 2017 as consultorias de design se estenderam quando o grupo foi convidado a fazer parte do projeto Brasil Original do Sebrae, com a curadoria de Renato Imbroisi e Jacqueline Chiabay, e nesta coleção foram criados os pássaros tridimensionais, replicas autenticas de espécies do Caparaó, em bordados e de tapeçaria.

“A partir dai as bordadeiras Josi, Celma, e a Joquebedes incorporaram todos os ensinamentos de empreendedorismo, de gestão, design e se profissionalizaram. Elas criaram uma produção independente dedicada a este modelo inovador com os pássaros, e depois, ampliaram para outros animais da fauna local”, conta a consultora do Sebrae, Jacqueline.

O trabalho das artesãs vem chegando longe com a força da internet, entre as realizações está a participação de eventos no Brasil e em outros países. “Foram muitos eventos como a Casa Bordada e Avistar em SP, estande na Feira Artesanato, Loja do Artesanato Capixaba no shopping Vitória e Horto Mercado, além de da participação na Suíça, o que rendeu divulgação e valorização do trabalho delas, e rodada de negócios pelo Sebrae. Podemos dizer que a evolução é um processo em construção, o conjunto de tudo que passaram e acreditaram e buscaram durante os anos” acrescenta a consultora.

Como um agricultor que planta sementes de olho na colheita, o sucesso das artesãs do Caparaó é motivo de orgulho para a consultora que acompanhou de perto todos os desafios. A internet sendo bem usada começa a dar o retorno esperado, para que as vendas não fiquem dedicadas apenas ao turismo local. “Sempre orientamos para todos os tipos de ações de mercado e informações gerais, e elas conseguiram captar e buscar oportunidades e seguiram por este caminho muito bem e iniciativas próprias a partir dos ensinamentos deixados”, afirma Jacqueline Chiabay.

“Com o tempo aprendi a amar os pássaros, hoje não consigo imaginar como seria viver sem meu trabalho e não falo por causa do dinheiro, mas falo por amor a eles. Tenho problema de saúde e não posso trabalhar na roça, então eles, me ajudam muito até mesmo na minha ansiedade”, acredita Josi.

Saiba também:

O Parque Nacional do Caparaó possui uma natureza exuberante e cerca de 370 espécies de aves. Um Guia das Aves do Caparaó foi produzido há três anos, a partir de recursos da Funcultura e da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo (Secult). A tiragem de mil exemplares foi distribuída gratuitamente em três escolas da região, pousadas do Parque Nacional do Caparaó e também durante a realização do Avistar Brasil 2018, em São Paulo (SP).

Onde elas estão:

Todas as artesãs moram em dois municípios capixabas que fazem limite: Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço, juntos eles tem cerca de 10 mil habitantes. A zona rural é grande, assim como a produção de Café e Leite, o turismo em torno do Parque Nacional do Caparaó, começou há cerca de 20 anos e ainda segue em constante crescimento.

Encomendas pelo WhatsApp: (28) 99999-9418 – Josi

Facebook: https://www.facebook.com/josi.passaroscaparao

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